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Acorda com a mandíbula cansada? DTM, bruxismo e o papel da Terapia da Fala

Foto do escritor: Wyclinic
Wyclinic
15 de set.
7 min de leitura


Acorda com a mandíbula cansada? DTM, bruxismo e o papel da Terapia da Fala

Acordar com a mandíbula cansada, sentir dor ao mastigar, dificuldade em abrir a boca ou dores frequentes na zona das têmporas pode justificar uma avaliação. Estes sintomas podem surgir em algumas disfunções temporomandibulares (DTM), mas também podem ter outras explicações e, por si só, não permitem fazer um diagnóstico.


O bruxismo e determinados comportamentos de tensão mandibular também podem estar associados a sintomas musculares ou articulares. Quando existem alterações da função orofacial, a Terapia da Fala, na área da motricidade orofacial, pode integrar uma abordagem multidisciplinar, depois de uma avaliação adequada.


O que são as disfunções temporomandibulares?

As disfunções temporomandibulares, frequentemente abreviadas como DTM, são um conjunto de condições que afetam a articulação temporomandibular, os músculos responsáveis pela mastigação ou estruturas associadas.


A articulação temporomandibular, ou ATM, é a articulação situada à frente de cada ouvido que permite abrir e fechar a boca e participar em movimentos como mastigar e falar.


As DTM não são todas iguais. Podem envolver predominantemente os músculos, a própria articulação ou uma combinação de estruturas, pelo que a avaliação é importante para compreender a origem dos sintomas.


Que sintomas podem estar associados a uma DTM?

Entre as manifestações possíveis encontram-se:

  • dor ou sensibilidade na mandíbula e nos músculos mastigatórios;

  • dor na região das têmporas;

  • dificuldade ou desconforto ao mastigar;

  • limitação da abertura da boca;

  • episódios em que a mandíbula parece bloquear;

  • determinados ruídos articulares acompanhados de dor ou dificuldade de movimento;

  • sensação de cansaço ou rigidez dos músculos da mandíbula.


As dores de cabeça podem coexistir com algumas DTM, mas uma dor de cabeça não significa automaticamente que existe um problema da articulação temporomandibular. Há muitas causas possíveis e a avaliação deve considerar o conjunto dos sintomas.


Também é importante fazer uma distinção: estalidos ou cliques na articulação sem dor são comuns e, isoladamente, não significam necessariamente que seja necessário tratamento.


DTM e bruxismo são a mesma coisa?

Não. Bruxismo e DTM são conceitos diferentes.


O bruxismo refere-se à atividade dos músculos da mastigação que pode ocorrer enquanto a pessoa está acordada ou durante o sono. No bruxismo de vigília podem ocorrer, por exemplo, contacto repetitivo ou sustentado dos dentes ou contração da mandíbula; durante o sono, a atividade muscular pode apresentar padrões rítmicos ou não rítmicos. O consenso internacional atual trata estas manifestações como atividades ou comportamentos musculares que devem ser avaliados no respetivo contexto clínico.


O bruxismo pode estar associado a consequências clínicas em algumas pessoas, mas não é sinónimo de DTM nem significa que todas as pessoas que apertam ou rangem os dentes irão desenvolver dor temporomandibular.

Revisões sistemáticas encontraram associação entre bruxismo e DTM, mas esta relação é complexa e depende também da forma como o bruxismo e a DTM são avaliados.


O stress causa DTM ou bruxismo?

A relação é mais complexa do que dizer que “o stress se acumula na mandíbula”.

Fatores psicológicos, incluindo stress e ansiedade, podem estar associados ao bruxismo e à experiência de dor em algumas pessoas. Contudo, uma associação não significa que o stress seja a causa única de DTM ou bruxismo. As DTM são consideradas condições multifatoriais e, muitas vezes, não é possível identificar uma causa única.


Por isso, perante dor persistente, não é adequado assumir que a explicação é apenas “tensão” ou stress. É importante excluir outros fatores dentários, musculares, articulares ou clínicos relevantes.


E a goteira? Protege os dentes ou trata a DTM?

Os chamados aparelhos oclusais, férulas ou goteiras podem ser utilizados em determinados contextos e podem ajudar a proteger os dentes quando existe risco de desgaste ou dano associado ao bruxismo. A decisão sobre a sua utilização deve ser feita por um médico dentista após avaliação.


No entanto, não é correto afirmar que uma goteira “resolve sempre” uma DTM nem, no extremo oposto, que serve apenas para proteger os dentes.


A evidência sobre o efeito dos aparelhos oclusais na dor associada às DTM é variável e depende do tipo de condição, aparelho e contexto. Nas DTM com dor crónica, uma guideline BMJ de 2023 favorece sobretudo intervenções conservadoras ativas, como educação, determinados exercícios, mobilização e estratégias de gestão da dor, apresentando uma recomendação condicional contra a utilização de aparelhos oclusais removíveis como tratamento da dor crónica nessa população específica. Outras guidelines chegaram a recomendações diferentes, o que reforça a necessidade de individualizar a decisão.


Assim, não suspenda nem altere uma goteira que lhe foi prescrita sem falar com o profissional que a indicou.


Quando pode entrar a Terapia da Fala?

A Terapia da Fala não substitui a avaliação médica ou médico-dentária de uma possível DTM. Pode, contudo, fazer parte da equipa quando a avaliação identifica alterações funcionais orofaciais relevantes para o quadro da pessoa.


No contexto da motricidade orofacial, o terapeuta da fala pode avaliar aspetos relacionados com a mobilidade e coordenação orofacial e com funções como mastigação, deglutição e outras atividades do sistema orofacial, dentro do respetivo âmbito profissional.


Em Portugal, a profissão de terapeuta da fala é regulamentada, sendo o seu âmbito definido legalmente na prevenção, avaliação e tratamento de perturbações relacionadas com a comunicação humana e áreas funcionais abrangidas pela profissão.


O acompanhamento pode incluir treino funcional

Consoante a avaliação e os objetivos definidos, podem ser utilizadas estratégias de consciencialização do comportamento mandibular, exercícios funcionais e treino das funções orofaciais relevantes.


Não existe, contudo, uma única “postura correta” que possa ser prescrita pela internet a todas as pessoas. A posição da língua, dos lábios e da mandíbula deve ser considerada no contexto anatómico e funcional de cada pessoa.


Uma orientação geral frequentemente usada na gestão da DTM é evitar manter os dentes cerrados quando não se está a mastigar, já que o contacto dentário contínuo pode aumentar a atividade muscular em algumas pessoas.


Exercícios e técnicas manuais podem fazer parte de uma abordagem conservadora

A evidência para DTM com dor crónica favorece várias intervenções conservadoras e ativas, incluindo exercícios mandibulares supervisionados, alongamento, mobilização e determinadas abordagens manuais.


A terapia miofuncional orofacial também foi estudada especificamente nas DTM. Uma revisão sistemática encontrou resultados favoráveis em alguns ensaios, sobretudo ao nível da dor, mas os próprios autores classificaram a evidência disponível como fraca.


Isto significa que pode ser uma opção útil para pessoas selecionadas, mas ainda não existe base para garantir resultados ou recomendar o mesmo protocolo a todos.


Uma revisão mais recente de intervenções combinadas na dor orofacial também encontrou resultados promissores, salientando, contudo, a necessidade de estudos mais robustos e com seguimento mais longo.


Porque é que uma abordagem multidisciplinar pode ser importante?

A dor temporomandibular pode envolver componentes musculares, articulares, dentários e psicossociais. Por esse motivo, algumas pessoas beneficiam de uma abordagem que envolva mais do que uma área profissional.


Dependendo do problema identificado, a equipa pode incluir, por exemplo:

  • médico dentista ou profissional dedicado a DTM/dor orofacial;

  • terapeuta da fala, quando existem alterações funcionais orofaciais pertinentes;

  • fisioterapeuta, particularmente quando é necessária intervenção musculoesquelética;

  • médico, perante sintomas que exigem diagnóstico diferencial ou outras condições de saúde;

  • psicólogo, quando stress, ansiedade, estratégias de coping ou dor persistente constituem uma componente relevante do problema.


Isto não significa que todas as pessoas necessitem de todos estes profissionais. O objetivo é identificar a intervenção necessária para aquele quadro concreto, evitando tratamentos desnecessários.


Quando deve procurar avaliação?

Pode ser útil procurar um profissional de saúde se a dor na mandíbula é persistente ou recorrente, dificulta a alimentação, limita a abertura da boca, interfere com o sono ou com o dia a dia, ou se suspeita de bruxismo acompanhado de dor ou dano dentário.


Um médico dentista é um ponto de entrada particularmente importante perante desgaste, fratura ou sensibilidade dentária e quando existe suspeita de bruxismo.


Procure ajuda mais rapidamente perante sinais de alarme

A maioria das DTM não é uma situação grave, mas alguns sintomas exigem uma avaliação diferente e não devem ser atribuídos automaticamente à tensão muscular.


Procure avaliação urgente perante, por exemplo:

  • traumatismo importante da face ou mandíbula;

  • incapacidade súbita de fechar ou movimentar adequadamente a mandíbula;

  • inchaço importante da face ou boca, sobretudo acompanhado de dificuldade em respirar;

  • dificuldade relevante em comer ou beber devido ao bloqueio ou à dor;

  • dor de cabeça nova e muito intensa ou acompanhada de alterações neurológicas;

  • alterações da visão associadas a dor de cabeça ou dor na região temporal.


Estes sinais podem ter causas que não correspondem a uma DTM habitual e necessitam de avaliação apropriada.


Mandíbula cansada não significa necessariamente que o problema “está nos dentes”

Dor, rigidez, cansaço mandibular e dores na região temporal podem justificar uma avaliação de DTM, bruxismo ou outras causas possíveis. O mais importante é não transformar estes sintomas num autodiagnóstico.


A evidência atual favorece, para muitas DTM, uma abordagem inicialmente conservadora e individualizada. Quando existem alterações das funções orofaciais, a Terapia da Fala pode ser uma das componentes desse acompanhamento, em articulação com outros profissionais sempre que necessário.


Na WYCLINIC existe atualmente uma área de Terapia da Fala no Porto, incluindo intervenção em motricidade orofacial e deglutição no âmbito apresentado pela clínica. Se estes sintomas persistem ou interferem com o seu quotidiano, pode pedir informação sobre a avaliação e perceber qual o ponto de entrada mais adequado.


Este artigo tem finalidade informativa e não substitui uma avaliação clínica individual.




FAQ

  1. Acordar com a mandíbula cansada significa que tenho bruxismo?

Não necessariamente. Cansaço ou dor mandibular pode ocorrer em pessoas com bruxismo, mas também pode estar relacionado com DTM ou outras situações. O sintoma isolado não confirma bruxismo.


  1. Qual é a diferença entre bruxismo e DTM?

O bruxismo descreve determinadas atividades dos músculos mastigatórios durante o sono ou a vigília. As DTM são um grupo de condições que podem

envolver músculos, articulações temporomandibulares e estruturas associadas. Podem coexistir, mas não são a mesma coisa.


  1. Um estalido na mandíbula significa que tenho uma DTM?

Não necessariamente. Estalidos sem dor são frequentes e muitas vezes não necessitam de tratamento. A presença de dor, limitação de movimento ou bloqueio muda a relevância clínica do sintoma.


  1. O stress pode fazer-me apertar os dentes?

Existe uma associação entre fatores psicológicos, incluindo stress, e bruxismo em parte da investigação, sobretudo no bruxismo de vigília. A certeza da evidência não permite, porém, afirmar que o stress seja a causa única.


  1. Uma goteira resolve o bruxismo?

Uma goteira pode ser indicada para proteger estruturas dentárias e, em determinados contextos, integrar o tratamento. O benefício depende do objetivo e da situação clínica; não deve ser apresentada como uma cura universal do bruxismo ou da DTM.


  1. A Terapia da Fala consegue tratar uma DTM?

Pode contribuir em casos selecionados, sobretudo quando existem componentes funcionais orofaciais relevantes. Há investigação favorável sobre terapia miofuncional orofacial, mas a evidência específica continua limitada, pelo que a decisão deve seguir uma avaliação individual e, quando indicado, uma abordagem multidisciplinar.

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