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Porque é que algumas crianças aprendem mais devagar do que outras?

Foto do escritor: Viviana Marinho
Viviana Marinho
29 de set.
4 min de leitura

Por: Viviana Marinho | Psicopedagoga Wyclinic



“Os colegas já conseguem ler e ele ainda tem dificuldade.”


“A irmã, com a mesma idade, aprendia tudo muito mais depressa.”


“Explico várias vezes e parece que precisa sempre de mais tempo.”


Quando uma criança demora mais tempo a aprender do que as outras, é natural que surjam dúvidas e preocupações. Mas há uma ideia que importa esclarecer desde o início: aprender mais devagar não significa, necessariamente, ter menos capacidade.


As crianças não aprendem todas ao mesmo ritmo, da mesma forma ou com as mesmas estratégias. E compreender estas diferenças é muito mais importante do que tentar fazer com que todas avancem à mesma velocidade.


“Se precisa de mais tempo, significa que tem dificuldades?


Não necessariamente.


Algumas crianças precisam de observar mais vezes, experimentar, repetir ou receber a informação de outra forma antes de conseguirem consolidá-la.


Uma criança pode demorar mais tempo a compreender um conceito matemático e, depois de o adquirir, utilizá-lo corretamente. Outra pode aprender rapidamente, mas esquecer com maior facilidade.


A velocidade com que se aprende não nos diz, por si só, a qualidade daquilo que foi aprendido.


É importante distinguir uma criança que simplesmente necessita de mais tempo daquela que apresenta dificuldades persistentes que estão a interferir significativamente com a aprendizagem.


Porque é que umas crianças aprendem mais depressa do que outras?


Porque aprender é um processo complexo.


Para aprender, o cérebro precisa de prestar atenção à informação, compreendê-la, relacioná-la com conhecimentos anteriores, armazená-la e conseguir recuperá-la quando necessário. Neste processo entram várias competências: atenção, memória, linguagem, velocidade de processamento, funções executivas, capacidade de raciocínio, motivação e regulação emocional, entre outras.


Cada criança apresenta um perfil próprio.


Por exemplo, uma criança pode compreender muito bem uma explicação, mas precisar de mais tempo para processar a informação. Outra pode ter facilidade em memorizar, mas maior dificuldade em organizar aquilo que sabe.


Por isso, duas crianças presentes na mesma sala de aula, perante o mesmo professor e a mesma explicação, podem precisar de tempos e estratégias completamente diferentes para chegar à mesma aprendizagem.


Então repetir muitas vezes é a solução?


Depende de como se repete.


Se uma criança não compreendeu uma explicação, repetir exatamente a mesma explicação cinco vezes pode não resolver a dificuldade. Por vezes, ela não precisa de ouvir mais vezes — precisa de aprender de outra maneira.


Pode necessitar de exemplos concretos, materiais visuais, manipulação de objetos, divisão de uma tarefa em etapas mais pequenas ou de relacionar um novo conteúdo com algo que já conhece.


Quando uma estratégia não funciona, antes de aumentarmos a quantidade de repetição, devemos perguntar-nos: “De que outra forma posso explicar isto?”


Mas os colegas já conseguem…


Esta é provavelmente uma das comparações mais difíceis para uma criança.

Mesmo quando não é verbalizada diretamente, ela percebe quando termina uma tarefa depois dos colegas, quando precisa de mais ajuda ou quando os outros parecem compreender algo imediatamente.


Se a isto acrescentarmos comentários como “o teu irmão nesta idade já fazia isto” ou “os teus colegas conseguem, porque é que tu não?”, a dificuldade deixa de ser apenas académica.


Pode começar a afetar a forma como a criança se vê enquanto aprendiz.


Em vez de pensar “ainda não consegui”, pode começar a acreditar “eu não consigo”. E esta diferença é muito importante.


Dar-lhe mais tempo não vai fazer com que fique ainda mais atrasado?


Dar mais tempo não significa baixar expectativas. Significa reconhecer que o caminho até à aprendizagem pode não ser igual para todas as crianças.


Algumas precisam de tarefas divididas em etapas, outras de mais exemplos, mais oportunidades para praticar ou de um ritmo de apresentação da informação diferente.


O objetivo continua a ser aprender. O que pode mudar é a forma e o tempo necessários para chegar lá.


Pressionar constantemente uma criança para responder mais depressa pode, inclusive, ter o efeito contrário: aumentar a ansiedade, os erros e a sensação de incapacidade.


Quando é que um ritmo mais lento deve preocupar?


As diferenças individuais são naturais, mas isso não significa que todas as dificuldades devam ser justificadas apenas com a ideia de que “cada criança tem o seu tempo”.


É importante estar atento quando:

  • as dificuldades são persistentes;

  • surgem em diferentes contextos;

  • interferem significativamente com a aprendizagem;

  • a distância relativamente ao esperado para a idade parece aumentar apesar do apoio disponibilizado;

  • a criança começa a evitar determinadas tarefas;

  • demonstra grande frustração;

  • necessita constantemente de ajuda;

  • apresenta uma diferença muito acentuada entre aquilo que consegue fazer oralmente e aquilo que demonstra noutras tarefas.


Nestes casos, compreender o perfil de aprendizagem da criança pode ajudar a perceber onde está a dificuldade e, sobretudo, que tipo de apoio poderá ser mais adequado.


Como posso ajudar sem pressionar?


Uma das mudanças mais importantes é substituir a comparação com os outros pela comparação com o próprio percurso da criança.


EM VEZ DE...

“O teu colega já consegue fazer isto.”

 EXPERIMENTE DIZER...

“Olha para aquilo que já consegues fazer que há algum tempo ainda era difícil.”

Valorize não apenas o resultado, mas também as estratégias utilizadas, a persistência, as pequenas conquistas e a capacidade de pedir ajuda.


E permita tempo para pensar. Nem todos os silêncios significam que a criança não sabe. Às vezes, ela ainda está a organizar a resposta.


Conclusão: mais devagar não significa chegar menos longe


Cada criança tem um ritmo. Mas cada dificuldade também merece ser compreendida.


Respeitar o ritmo individual não significa ignorar sinais de dificuldade, da mesma forma que identificar uma dificuldade não significa definir uma criança pelas suas limitações.


O mais importante é perceber como aquela criança aprende, aquilo que já consegue fazer e o que necessita para continuar a evoluir. Porque, na aprendizagem, chegar mais depressa não significa necessariamente chegar mais longe.


Algumas crianças precisam apenas de mais tempo. Outras precisam de um caminho diferente. E descobrir essa diferença pode mudar completamente a forma como vivem a aprendizagem.


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