Porque é que adiamos ir dormir quando estamos cansados?


Por: Marta Neto (Cédula Profissional OPP, Nº 29547) | Psicóloga Wyclinic
Quando “só mais cinco minutos” pode não ser falta de disciplina.
São 23h47.
Sabemos que amanhã temos de acordar cedo. Estamos cansados. Talvez até tenhamos passado o dia inteiro a desejar chegar à cama. Ainda assim, continuamos acordados.
“Só mais um episódio.”
“Vou só ver uma coisa no telemóvel.”
“Depois disto vou mesmo dormir.”
No dia seguinte, acordamos cansados e prometemos: hoje vou deitar-me mais cedo.
Este comportamento, tão comum, tem vindo a ser estudado pela Psicologia através do seguinte conceito: bedtime procrastination, ou procrastinação da hora de dormir.
E talvez o mais interessante seja que não estamos simplesmente a falar de pessoas que não têm disciplina. Estamos a falar de autorregulação.
O que é procrastinar a hora de dormir?
O conceito foi introduzido na literatura científica por Floor Kroese e colaboradores, em 2014. Os autores definiram bedtime procrastination como o adiamento voluntário da hora de ir para a cama, apesar de não existirem circunstâncias externas que impeçam a pessoa de o fazer.
Ou seja, não é chegar tarde a casa porque tivemos de trabalhar ou cuidar de alguém. É saber que deveríamos ir dormir e, mesmo assim, escolher continuar acordados.
O conflito entre o “eu” de agora e o “eu” de amanhã
Porque fazemos repetidamente aquilo que sabemos que não queremos fazer?
À noite, existe muitas vezes um conflito entre aquilo que queremos agora e aquilo que sabemos que vamos querer amanhã.
Agora queremos mais um episódio, mais alguns minutos no telemóvel ou simplesmente mais tempo para nós.
Amanhã queremos ter dormido.
O problema é que o “eu” de amanhã não está presente quando tomamos a decisão.
E é aqui que a procrastinação do sono se torna psicologicamente interessante: envolve recompensa imediata, autorregulação e dificuldade em escolher uma consequência futura em detrimento de uma gratificação presente.
Assim, depois de um dia preenchido por trabalho, estudo, filhos, tarefas e responsabilidades, a noite pode ser o primeiro momento em que sentimos que o tempo é verdadeiramente nosso.
“Finalmente tenho tempo para mim”
Ir dormir significa, nesse sentido, terminar o dia. E algumas pessoas podem prolongá-lo porque não querem abdicar desse momento de autonomia, prazer ou descanso psicológico.
Não significa que todas as pessoas que adiam a hora de dormir estejam conscientemente a tentar “recuperar o seu tempo”. Mas esta hipótese ajuda-nos a olhar para o comportamento de outra forma.
Em vez de perguntarmos apenas:
“Porque é que não tens disciplina para ir dormir?”
podemos perguntar:
“O que estás a tentar obter ao prolongar o teu dia?”
Talvez seja entretenimento.
Talvez seja silêncio.
Talvez seja autonomia.
Talvez seja simplesmente a sensação de que, finalmente, ninguém está a pedir nada.
Nem toda a procrastinação do sono é igual
Em 2025, André Oliveira, Beatriz Pereira, Camila Aguiar, Pedro Rosário e Paula Magalhães, investigadores ligados à Universidade do Minho, desenvolveram uma escala para estudar os motivos pelos quais as pessoas atrasam a hora de dormir. Os autores distinguem, entre outros aspetos, procrastinação deliberada, procrastinação automática e adiamento estratégico. Duas pessoas podem, portanto, chegar tarde à cama pelo mesmo comportamento, mas por razões psicológicas diferentes.
- Uma pessoa pode pensar: “Sei que devia dormir, mas quero continuar a ver televisão.”
- Outra pode simplesmente ficar no telemóvel sem sequer se aperceber de como o tempo passou.
Por fora, o comportamento é semelhante. Por dentro, pode ser bastante diferente.
Talvez não seja apenas sobre dormir
A procrastinação da hora de dormir parece ser um problema relacionado com o sono. Mas, em algumas pessoas, pode também ser sobre tempo, autonomia, recompensa e regulação emocional.
- Sobre a dificuldade em interromper algo agradável.
- Sobre a sensação de que o dia passou sem termos tido tempo para nós.
E é por isso que compreender o comportamento pode ser mais útil do que simplesmente julgá-lo.
Talvez a pergunta “Porque é que não vais simplesmente dormir?” seja demasiado pequena.
Uma pergunta mais interessante seria:
“O que acontece dentro de ti naquele momento em que sabes que precisas de dormir, mas escolhes continuar acordado?”
A resposta será diferente para cada pessoa.
Para algumas pessoas, será importante criar rotinas mais consistentes ou reduzir estímulos antes de dormir. Para outras, poderá ser necessário estabelecer limites com o trabalho, reservar tempo pessoal durante o dia ou compreender melhor aquilo que acontece emocionalmente quando chega a noite.
Porque, se passamos o dia inteiro a responder às necessidades dos outros, talvez seja compreensível que tenhamos dificuldade em abdicar da única hora que sentimos como nossa.
O problema é que aquilo que começa como uma tentativa de recuperar tempo pode acabar por roubar tempo ao dia seguinte.
Quando a Psicologia pode ajudar?
Uma consulta não serve apenas para intervir quando existe uma perturbação. Pode também ser um espaço para compreender padrões que se repetem, identificar aquilo que os mantém e encontrar estratégias mais ajustadas às necessidades de cada pessoa.
Porque, por vezes, mudar um comportamento não começa por exigir mais de nós.
Começa por compreender o que esse comportamento está a tentar dizer-nos.
Se sente que este padrão se repete e está a afetar o seu descanso, a sua energia ou o seu bem-estar emocional, procurar acompanhamento psicológico pode ser um primeiro passo para perceber o que está a acontecer e encontrar uma forma diferente de lidar com isso.
Referências bibliográficas
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Kroese, F. M., Evers, C., Adriaanse, M. A., & De Ridder, D. T. D. (2016). Bedtime procrastination: A self-regulation perspective on sleep insufficiency in the general population. Journal of Health Psychology, 21(5), 853–862.
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Oliveira, A., Pereira, B., Rosário, P., & Magalhães, P. (2022). Bedtime procrastination during the second COVID-19 lockdown in Portugal. Sleep Science, 15(1), 105–111.
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Pu, Z., Ng, A. S. C., Suh, S., Chee, M. W. L., & Massar, S. A. A. (2025). Failing to plan: Bedtime planning, bedtime procrastination, and objective sleep in university students. Sleep Medicine.
Azeem, O., Sulaiman, F., & Haidong, Z. (2026). Bedtime procrastination and psychological distress in university students: A systematic review and meta-analysis of their association. Frontiers in Psychology.


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