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Porque é que adiamos ir dormir quando estamos cansados?

Foto do escritor: Marta Neto
Marta Neto
13 de ago.
4 min de leitura

Por: Marta Neto (Cédula Profissional OPP, Nº 29547) | Psicóloga Wyclinic


Quando “só mais cinco minutos” pode não ser falta de disciplina.

 

São 23h47.

Sabemos que amanhã temos de acordar cedo. Estamos cansados. Talvez até tenhamos passado o dia inteiro a desejar chegar à cama. Ainda assim, continuamos acordados.

 

“Só mais um episódio.”

“Vou só ver uma coisa no telemóvel.”

“Depois disto vou mesmo dormir.”

 

No dia seguinte, acordamos cansados e prometemos: hoje vou deitar-me mais cedo.

Este comportamento, tão comum, tem vindo a ser estudado pela Psicologia através do seguinte conceito: bedtime procrastination, ou procrastinação da hora de dormir.

 

E talvez o mais interessante seja que não estamos simplesmente a falar de pessoas que não têm disciplina. Estamos a falar de autorregulação.

 

O que é procrastinar a hora de dormir?

O conceito foi introduzido na literatura científica por Floor Kroese e colaboradores, em 2014. Os autores definiram bedtime procrastination como o adiamento voluntário da hora de ir para a cama, apesar de não existirem circunstâncias externas que impeçam a pessoa de o fazer.

Ou seja, não é chegar tarde a casa porque tivemos de trabalhar ou cuidar de alguém. É saber que deveríamos ir dormir e, mesmo assim, escolher continuar acordados.

 

 

 

O conflito entre o “eu” de agora e o “eu” de amanhã

Porque fazemos repetidamente aquilo que sabemos que não queremos fazer?

À noite, existe muitas vezes um conflito entre aquilo que queremos agora e aquilo que sabemos que vamos querer amanhã.

Agora queremos mais um episódio, mais alguns minutos no telemóvel ou simplesmente mais tempo para nós.

Amanhã queremos ter dormido.

O problema é que o “eu” de amanhã não está presente quando tomamos a decisão.

E é aqui que a procrastinação do sono se torna psicologicamente interessante: envolve recompensa imediata, autorregulação e dificuldade em escolher uma consequência futura em detrimento de uma gratificação presente.

Assim, depois de um dia preenchido por trabalho, estudo, filhos, tarefas e responsabilidades, a noite pode ser o primeiro momento em que sentimos que o tempo é verdadeiramente nosso.

 

“Finalmente tenho tempo para mim”

Ir dormir significa, nesse sentido, terminar o dia. E algumas pessoas podem prolongá-lo porque não querem abdicar desse momento de autonomia, prazer ou descanso psicológico.

Não significa que todas as pessoas que adiam a hora de dormir estejam conscientemente a tentar “recuperar o seu tempo”. Mas esta hipótese ajuda-nos a olhar para o comportamento de outra forma.

 

Em vez de perguntarmos apenas:

 

“Porque é que não tens disciplina para ir dormir?”

 

podemos perguntar:

 

“O que estás a tentar obter ao prolongar o teu dia?”

 

Talvez seja entretenimento.

Talvez seja silêncio.

Talvez seja autonomia.

Talvez seja simplesmente a sensação de que, finalmente, ninguém está a pedir nada.

 

Nem toda a procrastinação do sono é igual

Em 2025, André Oliveira, Beatriz Pereira, Camila Aguiar, Pedro Rosário e Paula Magalhães, investigadores ligados à Universidade do Minho, desenvolveram uma escala para estudar os motivos pelos quais as pessoas atrasam a hora de dormir. Os autores distinguem, entre outros aspetos, procrastinação deliberada, procrastinação automática e adiamento estratégico. Duas pessoas podem, portanto, chegar tarde à cama pelo mesmo comportamento, mas por razões psicológicas diferentes.

 

- Uma pessoa pode pensar: “Sei que devia dormir, mas quero continuar a ver televisão.”

- Outra pode simplesmente ficar no telemóvel sem sequer se aperceber de como o tempo passou.

Por fora, o comportamento é semelhante. Por dentro, pode ser bastante diferente.

 

Talvez não seja apenas sobre dormir

A procrastinação da hora de dormir parece ser um problema relacionado com o sono. Mas, em algumas pessoas, pode também ser sobre tempo, autonomia, recompensa e regulação emocional.

 

- Sobre a dificuldade em interromper algo agradável.

- Sobre a sensação de que o dia passou sem termos tido tempo para nós.

 

E é por isso que compreender o comportamento pode ser mais útil do que simplesmente julgá-lo.

 

Talvez a pergunta “Porque é que não vais simplesmente dormir?” seja demasiado pequena.

 

Uma pergunta mais interessante seria:

 

“O que acontece dentro de ti naquele momento em que sabes que precisas de dormir, mas escolhes continuar acordado?”

 

A resposta será diferente para cada pessoa.

 

Para algumas pessoas, será importante criar rotinas mais consistentes ou reduzir estímulos antes de dormir. Para outras, poderá ser necessário estabelecer limites com o trabalho, reservar tempo pessoal durante o dia ou compreender melhor aquilo que acontece emocionalmente quando chega a noite.

 

Porque, se passamos o dia inteiro a responder às necessidades dos outros, talvez seja compreensível que tenhamos dificuldade em abdicar da única hora que sentimos como nossa.

O problema é que aquilo que começa como uma tentativa de recuperar tempo pode acabar por roubar tempo ao dia seguinte.

 

 

Quando a Psicologia pode ajudar?

Uma consulta não serve apenas para intervir quando existe uma perturbação. Pode também ser um espaço para compreender padrões que se repetem, identificar aquilo que os mantém e encontrar estratégias mais ajustadas às necessidades de cada pessoa.

 

Porque, por vezes, mudar um comportamento não começa por exigir mais de nós.

Começa por compreender o que esse comportamento está a tentar dizer-nos.

 

Se sente que este padrão se repete e está a afetar o seu descanso, a sua energia ou o seu bem-estar emocional, procurar acompanhamento psicológico pode ser um primeiro passo para perceber o que está a acontecer e encontrar uma forma diferente de lidar com isso.

 

 



Referências bibliográficas

Kroese, F. M., De Ridder, D. T. D., Evers, C., & Adriaanse, M. A. (2014). Bedtime procrastination: Introducing a new area of procrastination. Frontiers in Psychology, 5, 611.

Kroese, F. M., Evers, C., Adriaanse, M. A., & De Ridder, D. T. D. (2016). Bedtime procrastination: A self-regulation perspective on sleep insufficiency in the general population. Journal of Health Psychology, 21(5), 853–862.

Magalhães, P., Cruz, V., Teixeira, S., Fuentes, S., & Rosário, P. (2020). An exploratory study on sleep procrastination: Bedtime vs. while-in-bed procrastination. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(16), 5892.

Oliveira, A., Pereira, B., Rosário, P., & Magalhães, P. (2022). Bedtime procrastination during the second COVID-19 lockdown in Portugal. Sleep Science, 15(1), 105–111.

Oliveira, A., Pereira, B., Aguiar, C., Rosário, P., & Magalhães, P. (2025). Assessing motives for delaying bedtime: Development and psychometric properties of the Reasons for Bedtime Procrastination Scale. Psicothema, 37(1), 91–99.

Pu, Z., Ng, A. S. C., Suh, S., Chee, M. W. L., & Massar, S. A. A. (2025). Failing to plan: Bedtime planning, bedtime procrastination, and objective sleep in university students. Sleep Medicine.

Azeem, O., Sulaiman, F., & Haidong, Z. (2026). Bedtime procrastination and psychological distress in university students: A systematic review and meta-analysis of their association. Frontiers in Psychology.


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