Como ajudar uma criança que diz “não gosto da escola”


Por: Viviana Marinho | Psicopedagoga Wyclinic

“Não quero ir à escola.”
“A escola é uma seca.”
“Não gosto de estar lá.”
FRASES QUE PROCUPAM QUALQUER PAI, MÃE OU CUIDADOR
Ouvir uma criança dizer repetidamente que não gosta da escola pode deixar qualquer pai ou mãe preocupado. A primeira reação pode ser tentar convencê-la do contrário, explicar-lhe que “tem de ir” ou assumir que se trata apenas de falta de vontade. Mas quando uma criança diz “não gosto da escola”, vale a pena não ficar apenas pela frase.
Muitas vezes, estas palavras são a forma mais simples que a criança encontrou para comunicar algo que ainda não consegue explicar. A questão mais importante passa, então, a ser: o que estará por detrás deste “não gosto”?
“Mas todas as crianças se queixam da escola de vez em quando. Devo preocupar-me?”
Não necessariamente.
É perfeitamente natural uma criança dizer ocasionalmente que não quer ir à escola, sobretudo depois de um fim de semana, durante períodos de maior cansaço ou quando tem pela frente um teste, uma apresentação ou uma tarefa de que não gosta.
O que merece maior atenção é a frequência, a intensidade e a duração desse desconforto.

Se o “não quero ir à escola” começa a surgir quase todos os dias, se é acompanhado por choro, irritabilidade, alterações do sono, dores de barriga ou de cabeça frequentes antes de sair de casa, ou se a criança demonstra uma mudança significativa no comportamento, é importante tentar perceber o que está a acontecer.
Mais do que a frase em si, devemos observar o que mudou e como a criança se sente.
“Porque é que uma criança pode deixar de gostar da escola?”
Não existe uma única resposta.
Para algumas crianças, a dificuldade pode estar relacionada com a aprendizagem. Quando acompanhar a matéria exige constantemente um esforço muito superior ao dos colegas, a escola pode começar a ser associada a sentimentos de incapacidade e frustração.
Para outras, o problema pode estar nas relações: sentir-se excluída, ter conflitos com colegas, dificuldade em fazer amigos, sentir que não pertence ao grupo ou estar a viver uma situação de bullying.
Também podem existir outros fatores:
Ansiedade e medo de errar;
Pressão perante os resultados;
Dificuldades de atenção e concentração;
Baixa autoestima académica;
Alterações recentes na escola, na turma ou na própria vida da criança.

Por isso, “não gosto da escola” não é um diagnóstico. É um sinal que precisa de ser compreendido.
“Pergunto-lhe o que se passa, mas responde sempre ‘nada’. O que faço?”
Esta é uma situação muito comum.
Nem sempre as crianças conseguem identificar e explicar aquilo que estão a sentir. Perguntas muito diretas como “O que se passa contigo?” ou “Porque é que não gostas da escola?” podem resultar simplesmente num “não sei” ou “nada”.
Pode ser mais fácil fazer perguntas concretas:
“Qual é a parte mais difícil do teu dia na escola?”
“Há algum momento do dia em que te sintas desconfortável?”
“Como te sentes quando estás no recreio?”
“Há alguma disciplina em que sintas que precisas de mais ajuda?”
“Se pudesses mudar uma coisa na escola, o que mudavas?”
“Há algum momento na escola de que gostes?”
O objetivo não é fazer um interrogatório, mas criar espaço para a criança falar sem sentir que existe uma resposta certa ou errada. Às vezes, uma pequena informação aparentemente sem importância pode ajudar a compreender uma dificuldade muito maior.
“E se for apenas preguiça ou falta de vontade?”
Antes de concluir que uma criança é preguiçosa, é importante perguntar: porque é que perdeu a vontade?
Uma criança que sente repetidamente que não consegue acompanhar, que recebe resultados negativos apesar do esforço ou que se compara constantemente com colegas pode começar a evitar aquilo que lhe provoca desconforto.

Aquilo que parece falta de motivação pode, em alguns casos, ser uma forma de proteção: “Se eu disser que não quero saber, custa menos quando não consigo.”
É por isso que devemos ter algum cuidado com rótulos como “preguiçoso”, “desinteressado” ou “não se esforça”. Eles descrevem aquilo que vemos, mas raramente explicam porque está a acontecer.
“Devo obrigá-lo a ir à escola?”
A escola faz parte da rotina e a resposta não passa, à partida, por permitir que a criança fique em casa sempre que manifesta desconforto.
No entanto, manter a rotina não significa ignorar aquilo que ela está a sentir.
EVITE DIZER...
Não tens motivo nenhum para estar assim.Isso é só preguiça.Todos temos de fazer coisas de que não gostamos.EXPERIMENTE DIZER...
Eu sei que está a ser difícil para ti.Vais à escola, mas quero perceber o que está a acontecer.Vamos descobrir juntos como te podemos ajudar.A criança precisa de sentir que o adulto leva o seu desconforto a sério, mesmo quando ainda não compreende totalmente a sua origem.
“O que posso fazer em casa?”
Comece por observar padrões:
O desconforto aparece sobretudo ao domingo à noite?
Antes de uma determinada disciplina?
Em dias de teste?
Quando há Educação Física?
Depois do recreio?
Quando precisa de ler em voz alta ou apresentar um trabalho?
Estes detalhes podem dar pistas importantes. Procure também conversar com os professores. A criança pode apresentar comportamentos diferentes em casa e na escola, e juntar estas duas perspetivas ajuda a compreender melhor a situação.

Ao mesmo tempo, tente que a escola não ocupe todas as conversas familiares. A criança é muito mais do que as suas notas, trabalhos de casa e testes. Ter atividades de que gosta, brincar, descansar, estar com amigos e sentir-se competente noutras áreas também é fundamental para o seu desenvolvimento.
Quando devemos procurar ajuda?
Quando a recusa ou o desconforto perante a escola se tornam persistentes e começam a interferir significativamente com o bem-estar, a aprendizagem ou a rotina familiar, é importante procurar compreender a situação de forma mais aprofundada.
Alterações acentuadas de comportamento
Ansiedade intensa antes de ir para a escola
Queixas físicas recorrentes
Isolamento social
Diminuição significativa do rendimento escolar
Medo de determinados colegas ou adultos
Recusa persistente em frequentar a escola
Nestes casos, pode ser necessária uma articulação entre família, escola e profissionais especializados para identificar o que está na origem do problema e definir estratégias adequadas.
Porque quando uma criança diz repetidamente “não gosto da escola”, talvez não esteja simplesmente a dizer que não gosta de estudar. Pode estar a tentar dizer: “Há alguma coisa aqui que está a ser difícil para mim e eu ainda não sei como explicar.”
Antes de tentarmos convencê-la a gostar da escola, talvez seja mais importante ajudá-la a sentir que a escola também pode ser um lugar onde é capaz, compreendida e segura.


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