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"O meu filho é poliglota. Só que não!": O impacto dos ecrãs de verão na fala das crianças

  • Foto do escritor: Diamantina Moreira
    Diamantina Moreira
  • 14 de jul.
  • 3 min de leitura
Impacto dos ecrãs nas crianças

Por: Diamantina Moreira (Cédula Profissional OPP, Nº13205) | Psicóloga e Diretora Técnica Wyclinic


Ainda estamos a meio de Julho e com certeza que os pais já começaram a perceber que os seus filhos estão… como dizer… a mudar?!?


É um fenómeno curioso, mas também assustador. Imagine o cenário: estão a almoçar e o vosso filho diz-vos: “o almoço está “crinj” (cringe), que precisa de “deletar” uma coisa e pergunta se pode rapidamente ir “dropar um item” no jogo antes de ir para a praia, que isso o vai fazer “farmar aura” junto dos amigos”. Pelo meio, ainda solta um sotaque perfeitamente mimetizado dos vídeos do YouTube ou do TikTok. Como assim? Não se entende metade.


Vamos analisar à lupa. À primeira vista quase parece fofo e inteligente. Que pais não querem ter os filhos com conhecimentos elevados? O problema é que a criança domina os termos técnicos dos jogos e sabe as gírias da internet de cor, mas apresenta uma tremenda dificuldade em construir frases simples, fluídas e corretas no português de Portugal.


Do que leu até este momento, ficou preocupado? Continue a ler o texto. Não ficou e acha espetacular. Pare por aqui.


Vamos então refletir. A utilização excessiva cria uma névoa linguística na cabeça das crianças. E lamento informar, mas não estão a ficar poliglotas, estão a ficar com uma linguagem mais empobrecida.


Esta “babysiter digital” tem um elevado preço para a saúde mental e cognitiva

A intenção não é julgar ninguém. A correria da vida, as responsabilidades, as exigências laborais e familiares. Claro que é complicado gerir as férias das crianças. Os pais não têm tanto tempo de férias como os filhos. E sim, concordamos que muitas vezes, face a tanta coisa para gerir, a forma mais fácil de conseguir alguma tranquilidade é mesmo permitir que as crianças utilizem as redes sociais. É uma estratégia de sobrevivência e não há aqui espaço para julgamentos moralistas.


Mas não podemos esquecer que o cérebro das crianças funciona por repetição e absorção. Quando as crianças estão horas seguidas a consumir conteúdos digitais passivos, acabam por receber um input linguístico massivo que, de facto, não pertence, à sua realidade escolar ou familiar.

 

Isto gera, pelo menos, três consequências clínicas imediatas:

  • A mistura de termos bloqueia a escrita: o modo como cada criança fala dita a forma como ela vai escrever. Se ela pensa e fala em “dialeto da internet”, as dificuldades na leitura e na escrita vão surgir logo no primeiro ciclo.

  • Frustração: quando estão em família, a tentar comunicar com avós, tios, que eventualmente não jogam as mesmas coisas, as crianças não se fazem entender e isso gera frustração, dificuldades em manter uma conversa séria, o que leva a birras e até mesmo, em alguns casos, ao isolamento.

  • Paralisia na conversação: quando a criança está com o telemóvel, tablet, não conversa. A criança habitua-se a ouvir, mas desaprende a estruturar o próprio pensamento para responder.

 

Para que o desenvolvimento da linguagem ocorra de forma salutar, é importante que ocorra contacto visual, de rostos reais. Os algoritmos nunca vão conseguir corrigir a articulação de um fonema nem ensinar o seu filho a expressar a emoção real.


Não deixe a escola começar para se preocupar verdadeiramente com este assunto.


Não é necessário que se implementem medidas radicais, nem retirar por completo as tecnologias, nem tão pouco dar origem a discussões intermináveis. É fundamental que cada família comunica, negociei, ceda. O segredo está no reequilíbrio. Deixamos aqui algumas dicas:

  • Verifique as configurações: nas diferentes plataformas de vídeo e jogos, verifique as configurações e mudo o idioma estritamente para português de Portugal. Se vão consumir conteúdo, então que seja com o sotaque e a gramática que vão encontrar os manuais escolares.

  • A voz do cuidador: utilize algum do seu tempo para ler com o seu filho. O ato de ler em voz alta e pedir para comentar as imagens expande o vocabulário real.

  • Defina tempos de utilização: por exemplo, por cada hora de utilização de ecrã, 15 minutos de conversa ativa à mesa, sem tecnologias. Inventem histórias, falem de assuntos relevantes para a idade da criança.

 

Procurar ajuda profissional

Se nota que o seu filho está com dificuldades na linguagem, se regrediu, se está com sotaque que não é o dele, talvez seja melhor ponderar procurar ajuda profissional. A terapia da fala é um recurso ajustado para fazer a avaliação e intervenção (se necessária).


Na wyclinic, os nossos terapeutas da fala ajudam a resgatar a riqueza da língua materna através do jogo e da motivação, garantindo que o seu filho inicia o novo ano letivo a fazer-se entender por toda a gente. Sem misturas, sem barreiras e com toda a confiança.





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