Autocompaixão: como reduzir a autocrítica e melhorar a sua saúde mental
- Marta Neto

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Por: Marta Neto (Cédula Profissional OPP, Nº 29547) | Psicóloga Wyclinic
A forma como fala consigo importa: o impacto da autocrítica e da autocompaixão
A forma como fala consigo próprio — especialmente nos momentos difíceis — tem um impacto direto na sua saúde mental.
Para muitas pessoas, esse diálogo interno é marcado por exigência, julgamento e dureza. É o que chamamos de autocrítica.
Embora possa parecer útil, existe uma alternativa mais eficaz e saudável: a autocompaixão.
A investigação em psicologia, nomeadamente o trabalho de Kristin Neff, mostra que a forma como nos tratamos internamente pode influenciar profundamente o nosso bem-estar emocional.
Quando a autocrítica deixa de ajudar
A autocrítica surge muitas vezes com uma intenção positiva:
melhorar o desempenho
evitar erros
alcançar padrões elevados
No entanto, quando se torna excessiva, pode ter o efeito oposto.
Exemplo comum
Após um erro no trabalho ou num exame, pode surgir um pensamento como:“Isto mostra que não sou capaz.”
Este tipo de diálogo interno tende a gerar:
ansiedade
frustração
desmotivação
evitamento
Em vez de promover mudança, dificulta a aprendizagem e reforça sentimentos de inadequação.
Estudos indicam que níveis elevados de autocrítica estão associados a maior risco de ansiedade, depressão e burnout (Gilbert, 2009).
Autocompaixão: uma forma mais saudável de lidar com o erro
A autocompaixão não significa ignorar erros nem “facilitar”.
Significa tratar-se com a mesma compreensão e respeito que teria com alguém de quem gosta.
Segundo Kristin Neff, a autocompaixão assenta em três pilares:
Gentileza consigo próprio
Substituir o julgamento por uma atitude mais compreensiva.
Humanidade comum
Reconhecer que errar faz parte da experiência humana — não é algo que acontece “só consigo”.
Consciência emocional equilibrada
Observar as emoções sem exagerar nem evitá-las.
Exemplo prático
Perante um erro:
“Eu falhei completamente” (errado)
“Isto foi difícil e não correu como eu queria. O que posso aprender com isto?” (correto)
Esta mudança no diálogo interno reduz a intensidade emocional e facilita uma resposta mais construtiva.
O que diz a investigação
A evidência científica mostra que a autocompaixão está associada a:
menor ansiedade e depressão (Neff, 2003; MacBeth & Gumley, 2012)
maior resiliência emocional
maior capacidade de lidar com o fracasso sem desistir (Neff et al., 2007)
Ou seja, ao contrário do que muitas pessoas acreditam, ser menos duro consigo não reduz a motivação — pode, na verdade, fortalecê-la.
Como começar a praticar a autocompaixão
A autocompaixão é uma competência que pode ser desenvolvida. Pequenas mudanças no dia a dia podem fazer uma grande diferença.
1. Observe o seu diálogo interno
Repare em como fala consigo nos momentos difíceis.
Pergunte-se: “Falaria assim com alguém de quem gosto?”
2. Reformule os pensamentos
Não se trata de “pensar positivo”, mas de tornar o pensamento mais equilibrado.
De: “Eu falhei completamente”
Para: “Isto não correu bem, mas posso aprender algo daqui”
3. Normalize a experiência
Lembre-se: errar faz parte da condição humana.
“Outras pessoas também passam por isto.”
Isto ajuda a reduzir a sensação de isolamento.
4. Crie momentos de pausa
Pequenos momentos de autocuidado podem ajudar a regular emoções:
parar alguns minutos
respirar fundo
reconhecer o que está a sentir
Uma mudança na relação consigo próprio
Desenvolver autocompaixão não significa baixar expectativas.
Significa criar uma base interna mais segura para lidar com desafios, erros e momentos difíceis.
Em contexto terapêutico, esta mudança é muitas vezes um passo essencial para:
reduzir a autocrítica
melhorar a autoestima
aumentar o bem-estar psicológico
A forma como se trata nos momentos de dificuldade influencia não só como se sente — mas também como cresce a partir dessas experiências.
Não precisa de fazer este caminho sozinho
Se sente que a autocrítica tem um impacto negativo no seu bem-estar, pode ser útil explorar este tema com apoio profissional.
Na Wyclinic, ajudamos a:
compreender padrões de pensamento
reduzir a autocrítica
desenvolver autocompaixão
promover equilíbrio emocional
Cuidar de si começa na forma como fala consigo.
Referências bibliográficas
Gilbert, P. (2009). The Compassionate Mind. London: Constable.
MacBeth, A., & Gumley, A. (2012). Self-compassion and psychopathology: A meta-analysis. Clinical Psychology Review, 32(6), 545–552.
Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization. Self and Identity, 2(2), 85–101.
Neff, K. D., Hsieh, Y. P., & Dejitterat, K. (2007). Self-compassion and coping with failure. Self and Identity, 6(2–3), 263–287.

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