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Compreender o luto: uma dor que não é linear

  • Foto do escritor: Marta Neto
    Marta Neto
  • 2 de jun.
  • 5 min de leitura

Compreender o luto

Por: Marta Neto (Cédula Profissional OPP, Nº 29547) | Psicóloga Wyclinic


A perda de alguém que amamos é, sem dúvida, uma das experiências mais avassaladoras e desestruturantes da condição humana. Quando o luto nos bate à porta, o mundo tal como o conhecíamos deixa de existir. É comum sentirmos que perdemos o chão, que a nossa mente está num turbilhão incontrolável ou, pelo contrário, que fomos invadidos por uma dormência e um vazio inexplicáveis. 

 

Se está a passar por este processo neste momento, ou se está a acompanhar alguém que ama nesta caminhada, a primeira coisa que precisa de saber é: não há uma forma errada de sentir a dor. 

 

Embora o luto pareça um labirinto sem saída, a psicologia e as neurociências têm demonstrado que ele não é um lugar onde ficamos presos para sempre, mas sim um processo ativo, vivo e profundamente dinâmico de adaptação. Neste artigo, vamos explorar o que a ciência valida sobre o luto, desmitificar conceitos antigos e oferecer ferramentas práticas para o ajudar a navegar nesta tempestade com mais autocompaixão. 

 

O luto não é uma linha reta 

Durante muito tempo, a cultura popular alimentou a ideia de que o luto se divide em cinco etapas rígidas e sequenciais: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Este modelo (criado por Elisabeth Kübler-Ross) foi revolucionário na altura, mas foi desenhado para pessoas a encarar a sua própria morte terminal, e não para quem fica a lidar com a perda. 


A ciência psicológica atual é unânime: o luto não é linear. Não existem degraus a subir. O luto assemelha-se muito mais às ondas do mar. Você pode acordar um dia com uma sensação de aparente paz e aceitação e, ao final da tarde, ser assoberbado por uma vaga gigante de choro, saudade ou revolta. Essa oscilação não significa que você está a retroceder ou que está a "piorar"; significa apenas que a sua mente está a processar a perda da única forma que sabe: q

 

O Modelo do Processo Dual: O "vai e vem" necessário da mente 

Como é que o nosso cérebro sobrevive à intensidade de uma perda sem colapsar? A resposta científica sustenta-se no Modelo do Processo Dual, desenvolvido pelos investigadores Margaret Stroebe e Henk Schut. 



Segundo este modelo, uma adaptação saudável à perda exige que a pessoa navegue, como um pêndulo, entre duas realidades diárias: 

  • A Orientação para a Perda: É o espaço onde você se permite chorar, olhar para as fotografias, sentir a dor visceral da ausência, expressar a revolta e processar a saudade profunda. É o olhar para trás. 

  • A Orientação para a Restauração: É o espaço onde você se foca na reorganização da vida prática. Trata-se de aprender a gerir as rotinas diárias, resolver burocracias, assumir novos papéis e, de forma crucial, permitir-se a momentos de distração, descanso ou até um sorriso espontâneo. 


Muitas pessoas sentem uma culpa imensa quando se riem ou desfrutam de um momento, semanas após uma perda. No entanto, a ciência diz-nos que este "vaivém" é um mecanismo de defesa biológico e psicológico fundamental.


Ninguém consegue olhar diretamente para o sol durante muito tempo sem ter de desviar o olhar; da mesma forma, ninguém consegue olhar para a dor do luto 24 horas por dia sem exaustão emocional. Permitir-se descansar da dor é parte do processo de cura. 

 

Da Passividade à Ação: As Quatro Tarefas do Luto 

O psicólogo William Worden, trouxe uma perspetiva transformadora ao sugerir que o luto não é algo que simplesmente nos acontece e perante o qual estamos impotentes. O luto convida-nos a um papel ativo através daquilo que chamou: 

 

 As Quatro Tarefas do Luto: 

 

Aceitar a realidade da perda

O primeiro impacto é de choque e incredulidade. Esta tarefa envolve processar progressivamente, a nível cognitivo e emocional, que a pessoa partiu e que a sua presença física não retornará. 

 

Processar a dor do luto

O sofrimento precisa de ser vivido para ser integrado. Tentar anestesiar a dor com excesso de trabalho, distrações constantes ou substâncias apenas adia o processo. Sentir a dor é o único caminho para a transformar. 

 

Ajustar-se a um mundo sem a pessoa

Esta tarefa desdobra-se em três níveis: externo (como gerir a casa ou as finanças a sós), interno (quem sou eu agora sem esta pessoa?) e espiritual (como reorganizar as minhas crenças e o sentido da vida). 

 

Encontrar uma ligação duradoura com quem partiu enquanto se reconstrói a vida

Amar alguém não termina com a morte. Esta tarefa não pede que esqueça a pessoa, mas sim que encontre um lugar seguro para ela nas suas memórias e no seu coração, permitindo-se, ao mesmo tempo, continuar a investir no seu futuro, em novas relações e na sua própria felicidade. 

 

Estratégias Práticas para Cuidar de Si 

Se está a ler este artigo e procura respostas sobre o que fazer hoje para aliviar o peso, partilhamos algumas estratégias validadas pela prática clínica: 

 

Cria um "Espaço Seguro" para a Dor: Se sente medo de desabar a qualquer momento no trabalho ou em público, reserve um momento do seu dia (por exemplo, 20 minutos à noite) para o seu luto. Sente-se, ouça aquela música que o faz lembrar a pessoa, chore, escreva-lhe uma carta. Dê um canal de saída à emoção num ambiente controlado. 

 

O Princípio da "Tolerância Zero" à Culpa: A culpa é uma das visitas mais frequentes no luto ("Devia ter dito isto", "Podia ter feito aquilo"). Lembre-se de que agiu com a consciência e os recursos que tinha naquele momento. Trate-se com a mesma amabilidade com que trataria um amigo querido na mesma situação. 

 

Atenda ao seu Corpo: O luto consome uma quantidade massiva de energia física. O cérebro em luto funciona em modo de sobrevivência. Tente manter o mínimo de hidratação, faça refeições leves mesmo sem apetite e caminhe um pouco ao ar livre. O descanso físico apoia a regulação emocional. 

 

Apoie-se em Rituais: Os rituais humanos (escrever, plantar uma árvore em memória, acender uma vela, reunir a família para partilhar histórias engraçadas do passado) ajudam a dar uma forma física e simbólica a uma dor que abstrata. 

 

Quando o Luto Precisa de um Olhar Clínico? 

Sentir tristeza profunda, vazio, desespero e até dificuldades em dormir é perfeitamente expectável nos primeiros meses após a perda. Contudo, o luto pode, por vezes, tornar-se excessivamente rígido ou estagnar. 


A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece atualmente a Perturbação do Luto Prolongado. Devemos acender um sinal de alerta e procurar apoio psicoterapêutico especializado quando: 

  • A dor e a saudade permanecem com uma intensidade incapacitante muito tempo após a perda (geralmente mais de 6 a 12 meses). 

  • Existe uma incapacidade persistente em aceitar a realidade da morte (agindo como se a pessoa ainda estivesse viva). 

  • Há um isolamento social severo e abandono total do autocuidado. 

  • Surgem sentimentos avassaladores de culpa existencial ou pensamentos frequentes de que a vida já não vale a pena ser vivida. 

 

Procurar psicoterapia não significa que você é fraco ou que quer "esquecer" quem partiu. Significa, sim, que quer construir um espaço seguro, livre de julgamentos, para reorganizar os nós que a dor atou na sua história. 

Se o peso que carrega hoje parece demasiado grande para as suas forças, lembre-se de que não precisa de caminhar a sós.  

 

Na WYCLINIC, estamos aqui para o acolher, validar a sua dor e ajudá-lo a redesenhar o seu horizonte, ao seu tempo. 

Cuidar de si, é um ato de amor. 

 

 

Referências Bibliográficas: 

American Psychological Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787 

 

Shear, M. K., Reynolds, C. F., Simon, N. M., Zisook, S., Wang, Y., Mauro, C., ... & Skritskaya, N. (2016). Optimizing treatment of complicated grief: A randomized clinical trial. JAMA Psychiatry, 73(4), 311-319. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2015.3044 

 

Stroebe, M., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23(3), 197-224. https://doi.org/10.1080/074811899201046 

 

Worden, J. W. (2018). Grief counseling and grief therapy: A handbook for the mental health practitioner (5th ed.). Springer Publishing Company. 


Sente que precisa de ajuda?


Se sente que precisa de ajuda a lidar com o luto, estamos aqui para ajudar.



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